Onde a casa fala

bem-vindo, pode reparar na bagunça.

Zero

Primeiro peço calma. Um pouco de diligência. Qualquer dose de equilíbrio agora será bem vindo. Existe uma linha muito fina que separa o passado, o presente e o futuro. Como uma parede dessas de apartamento em que se ouve tudo do outro lado, onde escuto ecos antecedentes. A gente leva, ignora, se arrasta pela vida com uma bagagem cheia de qualquer-coisa. Hora ou outra o inconsciente chama. Peço-lhe então, licença poetica. Algumas coisas precisamos matar bem matadas; até que se esvaia todo e qualquer choramingo agudo escondido entre fronhas e lençóis. Dado a necessidade, aqui então, começo a traçar um novo significado pra tudo. Ainda sinto um perfume que possui um retorno olfativo muito semelhante. Tudo igual de um jeito diferente. Bem clichê. Divirta-se.

– Cira Marupiara

tenho um medo absoluto de não conseguir, em algum momento do ir e vir, travar do nada sem saber sair, o que fazer, qual emoção expressar. ao redor dessa casa-mente-corpo fui criando uma saída de emergência, poderia não ter domínio de tudo, mas de certo saberia um pouco de cada. isso me rendeu toda essa morada que agora sou. e de acordo com todas as análises, técnicas, organizadas em planilhas numéricas, também encontro o apunhado de defeitos, sejam fraquezas, sejam os ditos medos. sei onde tá essa "caixa de nada" escondo ela atrás daquele móvel antigo da minha consciência, esse mesmo que não tenho dominância, largo lá no fundo com a esperança de que suma junto com o eu-encolhido. lá perdido, este pequeno pedaço do que suponho ser parte de minha estrutura, as vezes solta um choro contido. escuto-o atentamente. as outras consciências que se juntaram em parte do quebra-cabeça eu, gritam todas as vezes que escutam o padecido. admitir a si mesmo a próprias falhas é preciso. quanto tempo não escutei meu próprio grito? nem sei mais. já não faz mais sentido organizar estrofes e buscar um eu veredito. porque ser humano tem algo que nem o mais profundo complexo vence o ser vagabundo. ainda tão limitados que abrir os olhos consiste em ver sujeira e é difícil enxergar e não poder delatar. está todo mundo preocupado em dizer que está limpo. é esse o maior medo e defeito do ser: a incapacidade. parte a porta do peito, respira fundo e pensa discretamente "já vai tarde" só pra fingir uma coragem travestida de vaidade. buscar perfeição em cada ato é o mesmo que pedir pra se enganar. de todas as nossas piores decisões, se iludir sozinho é a pior delas. e o pequeno-ser-encolhido sendo ignorado todos seguem uma ditadura de fingir que está muito auto centrado. como pode uma formiga pensar que é grande quando tem toda a terra podendo desmoronar? a qualquer segundo qualquer teto pode cair.

– Névoa, 24/08/2021

Preferida, escolhida

Não quero ser A Escolhida
Tem tanta responsabilidade envolvida
Me cansa tanto já ser só eu
Quiçá suprimir expectativa

Há um sabor de apenas existir
Ser colo de ir e vir
Pertencer a si
Respeitar as frestas de silêncio

Procurar na calada da noite
As sombras, as luzes negras
Em meio à cidade grande
Estar no escuro às vezes é sorte

Agora é durante as madrugadas
Que os pássaros cantam
Estão todos embriagados
Quem se importa? Estamos todos
Um pouco drogados

Por falar a verdade
Já não me cruza mais a moral
Desse véu irreal traçado
Por um imaginário criativo
Que não existe

Continuo preferindo o grafite
O riscar do lápis que machuca
A folha, o papel, esse barulho
Da mão traçando uma linha
Absolutamente prazeroso

Saindo da mente, através
Das próprias mãos
Não é isso que se trata todas
as ações?
Existir é ser um pouco artesão

– Cira Marupiara

sem nome, com endereço

por você me faço bicho
tiro as minhas máscaras
assumo que sou animal
apenas e somente isso
um ser irracional

é por isso que não consigo
olhar tanto nos seus olhos
ignorar o brilho
fingir que não sinto carinho
ou que não vejo caminho

sim sou tola
patética e incoerente
fujo de mim
e de um monte de gente
mas de você nem que eu tente

quero ser humana
ser boneca ser pessoa
deixar de ser só bicho
ter seu toque fino

mas sinto como criatura
besta fera ferida
sinto que sou tua
sentimento ilógico

nunca estou pura
queria rasgar tua pele
morar dentro
das suas entranhas

entender como
seu sangue pulsa
mas tu me derruba
um movimento
e já me encolho

tudo parece tão maior
olhando daqui
queria conseguir
colocar um telescópio
dentro do meu peito

assim quem sabe
enxergaria direito
sobre a lente óptica
da anahata deste corpo

no fim meu caro moço
pode me ver como
puro esgoto

serei sempre canção
estarei sempre pronta
pra organizar os fios
te oferecer meu toque macio

bagunçar seus cabelos
entender seus medos
no final amo mesmo
essa posse doentia

coisa insana
morar entre o amor
e o drama
entre o ódio
e a cama

no final baby
já nos fudemos
e nos fundimos
talvez nos matemos
mas morreremos juntos

o encaixe do beijo
te chupo te abraço
você me cheira me aperta
te trago pra perto

me sente inteira
sou a primeira
no seu peito
você sempre foi único
no meu escuro

te amo por toda eternidade
essa é minha maldição
e nossa sentença de morte

se você quisesse repetir
dez mil vezes
a dose de mim
aceiteria todas as vezes
até o fim

– Lenora Blackthorn

Já pensou no choro de Deus?

Pois se nós fizemos sua imagem e semelhança

Então todo nosso auto castigo e insegurança

Também é quebra de esperança

De um suposto ser superior que nos ama.

– Vitória Novoa, 04/2026

Carta aberta à todos meus amores, à mim mesma;

Queria dizer que até mesmo sozinha me sinto um sabonete molhado que se aperta, escorrega e não consegue nunca mais ser segurado. Parece que tudo que me conquista, acontece somente uma vez, me sinto uma viajante estelar mesmo, como se minha alma fosse um cometa e que eu passasse aqui só para dar um deslumbre do que o amor pode ser. Amor, não esse personagem perfeito que nunca foi visto, não essa coisa idealizada que esperamos receber pois somos egocêntricos o suficiente para nos considerarmos merecedores, mesmo diante de todos os nossos próprios defeitos, sabendo que há dias (as vezes a maioria) em que não suportamos nem a nós mesmos. O amor é essa coisa esquisita estranha que só pode ser sentida, é como a arte de ler livros pela primeira vez, nunca será igual a outras vezes e nunca terminará com a mesma lição. Sinto que sou cura, remédio ou veneno, droga daquela que dependerá da dose. Abandonei a minha face de amar obsessivamente, porque sendo feita de ar, não posso me prender para deixar de voar. É muito difícil caber na expectativa do outro, é muito difícil cobrar que o outro se encaixe na sua carência e demanda. Quero me bastar mesmo não me aguentando. Quero viver de amores, no plural e não algo que é fixo como uma sentença, a menos que o amor me dê um tiro e me derrube, continuo sendo exploradora do mundo, com a bolsa cheia de tralha desnecessária, mas muito contente de poder escolher cada coisa que vai na minha mala. Carregando meus pesos com um sorriso no rosto, deixando de lado o cansaço do corpo, deixando o suor, as lágrimas, molharem minha pele. Como filha das águas grandes, quero arrebatar todas as minhas limitações assim como sentimos frio na barriga quando a onda quebra rápido demais, antes do nosso cérebro conseguir pensar. Tomando um caldo do mar, tombos da vida, ralando meus joelhos, assoprando sozinha meus machucados, lambendo as feridas como um gato apaixonado pelo seu pelo brilhoso. Como explicar tanto sentir se as pessoas estão colocando seus corações dentro de cercadinhos, já que esse caralho de mundo deu a todos um passo-a-passo para o que quer que seja. Todos são performáticos, ninguém é apaixonado. Insanidade ter tanto para pedir sempre, mas nunca nada a oferecer. Somos realmente crianças mimadas, onde só queremos nosso qualquer. Onde vamos nos remoendo atrás do que erramos, ao invés de permitir que os erros reverberem na força da escuridão onde realmente está o inconsciente. Esse é meu grande defeito, tenho uma paixão pelas histórias, não tenho orgulho para ficar negando minha existência em sua totalidade porque aquele outro conto, aquela outra crônica, aquela poesia, aquele poema, foi rasgado e queimado, em que nem as palavras fazem sentido, quando vem aquele sentimento de ser patético, pequenininho e ao mesmo tão simples. Olhar pra dentro do meu choro e ver que há uma criança dentro do meu peito e perceber que talvez tenha em todos os peitos por aí. É isso, sou corajosa para aceitar o que está por vir, ainda que meus olhos estejam tampados, já vi o que é me perder de mim, mas depois disso, nasceu uma bussola interna aqui dentro. Dessa forma sinto que minha intuição jamais iria me trair, pois mesmo que vá cair, eu já sei o que fazer com as mãos.

– Névoa, 02/05/2026

plexo solar

ficou registrado em algum lugar jogado, nos espaços entre meus erros, misturado com memórias ruins e maus cheiros. pequenos detalhes entre meus devaneios. justo eu tão pragmática, me questionando até o que a minha mente guarda. no transpassar de uma perna e outra, me vi puxada pelo tempo, percebendo o que sempre recusei mas vejo. no fundo marrom da janela da alma, o reflexo que desejo. há um mistério guardado no sabor auditivo desse atrito vocal, onde meu querer deságua, que chama meu nome e me encontra. mas sempre sou tão certa, tão séria, tão esperta, perdida pensando controlar o mundo, o tomando para mim. é duro admitir que talvez eu não seja tão inteligente assim, talvez o controle fuja de mim, lá onde as perversidades morrem e nascem flores que querem tomar o jardim. malditas ervas daninhas do meu coração, querendo dominar o que não tem direção. queria ter mãos pra alcançar o inatingível, para puxar as raízes daquilo que faz atravessar a pele. esse peito tão sol, tão só. contraditório, sol que brilha mas não quer viajar no espaço como a luz. sentença maldita, tão preso em si, eu tão solta de mim. aprendi a dividir, aprendi a sentir, queria dizer que passei um café pra te receber aqui. que a casa-abraço arde mas não se vê, se sente.

– Névoa, 02/05/2026

Precisar

Esquecer que neste peito
bate um coração
não evitar sentir

Mas procurar um jeito
em que a poesia
não revele meus devaneios
meus defeitos

A alma que grita tanto
precisa de silêncio

– Fantasma

Um

Como sempre fui alguém que sente tanto, Procurei inúmeros porquês, pra cada passo, acaso encontrado, para cada estrago. Até que em dado momento, tudo isso se dissipou. Tanta palavra ao vento, ponto final forçado que estancou. Como poderia eu, que sempre escrevi com sangue ou lágrimas, ódio ou ternura, tiraria de mim, algo que tornei segredo? Não tem como dizer ao poeta, idealizador romântico do movimento da vida, que ele deve tapar o olho esquerdo e enxergar só com o direito, escrever só na sombra, em dias ímpares e evitar o outono. Transformei sagrado um lapso de tempo. Já que por costume vulgarizei meus versos e cada palavra bendita ou maldita, não examinei se havia sentido ou nexo. Escrevi tanto de dores e rancores que não poderia ser autora de um ponto final tão ambíguo. Algo que se perdeu pelo caminho, como pode a inspiração existir por si mesma? Procurando a parte em que se abrirá o peito e estraçalhará, mostra que tudo é ridículo mesmo e as vezes a gente precisa abrir a caixa torácica com as mãos e lavar o coração com álcool 70. Outro dia estava rindo, prozeando e decidindo não mais aceitar o tapa olho auto imposto porque sempre, sempre, sempre, escrever nesse tom, é sangrar em público. Não há como escapar. Entre o véu do esquecimento e o presente tem uma lacuna latente - esse espaço precisa ser preenchido. Nessa mesma conversa, percebo que não posso dizer que nada me foi roubado. Nada me foi tirado e muito menos esquecido. Enquanto em meus olhos houverem montanhas, haverá um significado em mim que me transbordará. Preciso extrair isso como quem faz hemodiálise artistico-melancolico-emocional. É um espaço demolido no braço, deixo agora, tomar sua forma natural e aceitar que um dia, seja só uma mata tomada por todas as plantas nativas, sem presença alguma de espécie invasora despretensiosa. Que a gente se proteja de si mesmo. Entre essas falhas e buracos de minhoca, chegou a hora de martirizar isso, exorcizar em linhas. Precisei reconstituir o cadáver dessa psicose efêmera já tão apodrecida, para preparar seu velorio. Visto-lhe a melhor beca, precisando dar ponto sem dar nó, costurar numa costura infinita para que só, encontre forma para que tudo se cale de uma vez por todas. Quero ansiar novas buscas e reaproveitar espaços, reciclar o que silenciei e deixar ir com o vento. Agora, estamos festejando o luto. Vamos mudar a visão tão ocidentalizada de morte e reinventar ela através da vida. Não morremos baby. Seguimos em frente.

– Cira Marupiara

Mulher bicho, bicho-mulher

Eu sou mulher-bicho
ou seria melhor; bicho mulher?
é confuso o labirinto do Eu
mas inegável o ciclo

Observo os trabalhos entre os dedos
meus passos que revelam segredos
meus silêncios de grandes enredos

A parte animal do meu âmago
é o lado que menos estranho
mas ainda é o que espanta rebanho

A parte mulher não sabe seu tamanho
uma hora é verbo outra é estação
ser plena ou ser pequena
outono ou verão

Lua que guia por ilusão
sendo subterfúgio da criação
se somos o que não existe

Luz que brilha triste
buscando tanto de si
ouro prata ou marfim
caçando sua própria carne até o fim

Da onde vem a vida
se não de mim;
se não de nós

Viver; vida;
hora substantivo, hora verbo
tudo que define o ser
começa na mulher.

– Vitória Novoa

Zero

Faz algumas luas em que estou tomando um coquetel de ervas que a curandeira mandou. percebo que alguns dias não consigo enxergar o mundo ao meu redor. Alice, minha gata preta, já reclamou que não estou lhe cumprimentando quando chego. Passo reto como se os compromissos fossem mais importantes do que estar presente em estado físico. Me perco nos meus pensamentos e percebo que há anos que não entendo quem sou. Nos últimos 6 meses já não sei quem eu amo ou quem já me amou. Faço uma bagunça absurda, como se minha vida fosse meu jardim em dia de chuva, quando alaga e o barro fica embaixo das unhas. Fui tomar um chá logo ali, senti que o tempo parou por alguns segundos. Como se houvesse alguma clareza nessa mente louca embriagada. Acho que alguém entrou no ambiente, ou talvez esteja enganada. Será que deveria mesmo seguir tomando os coquetéis da curandeira? Sinto que essas ervas me aceleram, me dão tremedeira. Mal consigo focar onde vou me dedicar, pra onde olhar, o que exatamente pensar. Por um lado, consigo realizar todas as minhas tarefas como antes não conseguia. Mas não sei dizer quem sou ainda. E a pessoa que entrou no recinto, quem é? Joaquim, Leonardo e Roberto pareceram obcecados. Achei besteira, esses homens são tão admirados. Perguntou se queiram doce, todos aceitaram, como crianças ansiosas. Fico desconfiada e dou uma ignorada. Entendo o choque de Leonardo, tantos anos trabalhando com caramelo, mas os outros? Que besteira. Realmente homens se encantam com qualquer bobeira. Pego meu tabaco, entro na minha mente e esqueço do espaço. Não preciso raciocinar pra estar presente. Esses meninos são patéticos, mas são só garotos. Observo a fumaça do meu cigarro em seu movimento cinético. Devo ter soltado algumas palavras ao vento, mas agora não lembro.

– Lenora Blackthorn

  
        

Me sinto quadrada, onde tudo que falo, é como se não estivesse sendo escutada. Minha urgência pra ser ouvida, é a mesma coisa que me silencia. Poderia criar provérbios, conselhos e leito e mesmo assim, não teria jeito. Escalaria a montanha da justiça e ainda não seria capaz de sair dessa areia movediça. Tentar pertencer à algo, grupo ou política, pra que essa sensação de ser sozinha, fosse extinta. Escrever oitenta mil poesias, contar vinte e cinco mil histórias, mudar personagens, ressignificar memórias. Ainda assim me sentiria incompreendida. Existe algo dentro de mim que não me permite atravessar a realidade, os segundos, na mesma hora em que ocorrem. Andarei por todos os mundos, pensarei com todas as possibilidades e ainda terminarei essa vida como um moribundo. Laudo da morte em vida: buscar casa, onde só se faz cabana. Esse anseio que me auto engana. Essa coisa sem nome, quase profana, que rasga meu peito e me faz querer abraçar qualquer causa só pelo efeito. Faço tantas perguntas ao universo e tento responder sendo este único ser; imperfeito. Mas é essa mesma busca incessante que me define; oras. Se só o movimento pode gerar outros, então me agarro ao impulso. A ironia de existir se perguntando porque és tão avulso, ser exatamente a resposta que busco. Basta enxergar, mastigar essa ideia e aceitar. Ainda que a cada mordida, fique mais difícil de ser engolida.

– Lenora Blackthorn

        

Lucidez (?)

Você já se perguntou o que acontece com a mente de alguém que dissocia da realidade? Pois, eu também não, até começar a enxergar as coisas com duas lentes: a do olhar velho no novo e o olhar novo no velho. Precisei (ainda preciso) revisitar inúmeras memórias, o que é bem irônico na verdade, tendo em vista que sempre fui muito boa de memória. Mas basicamente o exercício consiste em refazer todos os meus passos, para entender as consequências deles. Sinto que atravessei o espelho d’água entre a realidade e minhas neuroses, as psicoses, todas as adjacências do meu ser. O que significa que mesmo que tenha dito e repetido mil vezes a mesma história como um disco arranhado, quando realmente as coisas tomam forma dentro deste peito, é quando está tudo em silêncio. O que acontece com as crianças sensíveis em um mundo que não as sente? Também tem isso, nasci e cresci uma criança esquisita e embora alguns se surpreendam, era incapaz de falar, sorrir ou gesticular com estranhos. Realmente sentia que havia uma barreira entre meus pensamentos e o que meus sentidos refletiam do mundo lá fora. Agora imagina tentar definir isso quando a nossa espécie só vira gente depois dos 25 anos? Sei lá, em tantos momentos nem eu me reconheço. Então desculpa amigos, colegas e conhecidos (alguns não me desculpo tanto), se em dado momento fui uma completa babaca, posso dizer que no fundo eu estava apenas desesperada. A gente precisa inventar a dança, o ritmo, os acordes, o tom, tudo, enquanto a vida nos chicoteia dizendo ‘’VAI, VOCÊ TEM QUE IR’’ e de repente estamos lá, dançando desengonçados no ritmo que a vida determina (ainda mais em cidades grandes) sem nem saber quem somos, o que gostamos, o que detestamos, o que queremos. Te falar que criei várias neuroses pela vida? É… parei de me importar com um milhão de coisas e às vezes mesmo sem me interessar pela resposta, ainda sinto vontade de fazer a pergunta. Porque não aguento mais o retrogosto amargo da dúvida, não posso ver mais uma vez a vida me chicoteando e sentir que perdi algo importante pelo caminho. Não quero mais me dar conta de que tudo que precisava era me tratar com mais carinho. Já experimentei das vezes que sentimos que algo escapou das nossas mãos e a impotência de não poder magicamente criar uma máquina do tempo. Temos, tive, terei que lidar com o que ficou. E o que ficou é o futuro, que se projeta e onde sinto que seguro entre os dentes tudo que capturo de sonhos. Estive tanto tempo trancafiada, foi tão difícil me manter calada; não expressar essas palavras, não tentar elaborar textos com as minhas estradas. Porque essa é a minha mente, ela acumula essa coisa pequenininha que se juntam pelas sílabas e de repente, elas estão entrando e saindo desordenadamente de mim. Me canso sozinha com uma sede de tomar todas as informações do mundo em um gole só. Também me dou conta que me tornei monotemática, enquanto não desemaranhasse todos os órgãos que deram nós dentro do meu corpo, jamais conseguiria sentir que na verdade, nunca usei do meu instinto de criar a ninguém, mas para criar a mim mesma. Não precisamos de ninguém mesmo. Apenas queremos.

‘’Nada que eu aceite sobre mim pode ser usado contra mim para me diminuir’’. Audre Lorde, 1984.

– Zaya Lumenvalle

Chocolate

Por bem ou por mal
quando já não se sabe o que fazer
opte pela pior opção
o que parece não ser decidido
sem querer já foi escolhido
enfim, não há pra onde correr

Fogo no circo - 'taca' o puteiro
seja pra sentir portanto
sinta sempre por inteiro

Sempre tive um problema
com barras de chocolate
nunca soube comer metade
e guardar o resto pra depois
isso não quer dizer nada
além de que não sei ficar parada
diante de todas as vontades

Ainda sou humano, bicho
animal mesmo - de verdade
prefiro ainda dias de tempestade

Não faz sentido deixar a pele arder
nesse sol quente que o universo nos deu
sem aproveitar o cheiro da chuva
odor esse que sua descrição exata
é ele mesmo

E ainda que eu tente ser democrata
as pessoas assim como chuva
muitas vezes são verbo
que apenas elas se intitulam

A vida é a perspicácia
de cada peculiaridade do ser
gostar da estranheza também é ver
rostos em paredes descascadas
sentir-se completamente nua
em cada poesia despedaçada

Muito complicado a linha tênue
entre ver o outro e o próprio umbigo
muitas coisas não se descrevem
como o sentimento de estômago comprimido
que vem do coração tantas vezes
remendado, corrompido, e até cuspido.

– Vitória Novoa, 09/11/2021

* Poesias livres perdidas

SP

Perdão, bandeira do Estado de São Paulo. Non durco, duco. Mas gosto de ser conduzida, dar direção pode ser uma atividade cansativa. Como aviões que operam em piloto automático em pontes aéreas, queria ter a facilidade de saber as medidas certas. Tenho tanta preguiça que desenvolvi uma ótima métrica, só para não precisar de trenas e fitas a cada dúvida. Me admira dias tempestuosos, só que ninguém gosta de carregar guarda chuva. Acredito fielmente que há quem escolhe, e quem é escolhido, e não sendo uma regra, um dia você é percebido, no outro, você enxerga. A vida é uma grande merda. Converso com pássaros, imagino corvos falantes. Moro na capital e me restou pombos sujos esvoaçantes. Cada geografia que te limita, também te define. É muito difícil ter uma verdade infinita. O homem em sua filosofia, aprendeu sobre dor, angústia, mas não aprendeu a sentir genuinamente empatia. É tão fácil ficar cego aos desejos, tão fácil quanto me perder nos lampejos desses olhos. As vezes só preciso de uma águia, em minha direção, atravessando minha alma.

– Vitória Novoa, 20/11/2021

Acometa coração cometa coração

Tem chuva, uma janela, e minha mente. Ela cria, dá voltas, gira mais não para. Pira mais não enlouquece, sorri e se entristece. Sentir não deve ser evitado, não consigo. O papo é legal, mas sei que é furado. É que ultimamente eu não tenho mais aguentado. Aguentado o que nos é cobrado, o que é permitido ou que vigiado. Não quero morar nesse planeta, quero viver nem que seja em um cometa. Onde a tudo se acomete mas quando vem morte, já havia transcedido. Não tem abrigo, saí solto pelo espaço. O tempo acelerado, supera o brilho subestimado e especulado. Quero meu coração do lado, sem ter medo de dar laço. Emoção como bússola, intuição como direção. Só não quero fazer rasgos, e causar mais estragos. Só deixa eu ir, quando olhar para cima o cometa já passou no céu. Exatamente como ele, corri por aqui.. Ali.. Mas não dá para desacelerar aquele que nunca para. Afinal o coração é como cometa, e o meu só gosta quando dispara

– Vitória Novoa, 21/12/2016

Carta ao amor e a filosofia

Maldição daquele que sua melhor atividade é o pensar; pois este não cansa e não sabe parar. Queria pintar umas paredes, fazer yoga, ser viciada em alguma ciência que precisasse de toda atenção. Queria ser crente; talvez assim não fosse tão ansiosa para sentir uma mísera faísca. Algo que me faça fugir da filosofia do absurdo; da ideia de que algo precise nos preencher. Predileção de si mesmo, adorar ser amado mas não enxergar amor, talvez ele esteja por todos os lados e onde eu vou, mas não há sentido se toda concepção de amor constroi-se dentro do ego. Meu ego me machuca, teu ego te prejudica. Amor e orgulho no mesmo barco, já que sentimento tão genuíno está simbioticamente alinhado com nosso sentido animal; é inevitável enfim. Como quando conclui em meios a torturas e horas em que queria e pedia, consciência por favor pare. Aquela frase que diz que a unica certeza da vida é a morte e vos digo, o amor também. Pois pode ser inevitavel que eu te queira, mas é inevitável também que sejamos fracos. Estamos nesse corpo físico porque somos inferiores. A certeza do amor, é a certeza de que fé é necessário. Esperança, gasolina.

– Vitória Novoa, 23/14/2018

Por aí

Enquanto almejo grandes abraços e bons carinhos
vivo um mundo que por si só
dificulta meus caminhos

As vezes é difícil dizer quem eu sou
animal indócil, sem vergonha
expresso-me por tantas apenas no impulso

Por me sentir preso numa calça justa
que aperta-me até a nuca
a selva é de pedra e minha mente julga

Assumo uma postura fajuta
de fazer questão apenas pra evitar a solidão
que mal tem em gostar de ser ninguém
e concentrar-se no próprio ninho?

Ser é uma questão de espaço.

– Vitória Novoa, 26/10/2020

Fechadura

Estou fechando a porta
por esses caminhos que deixam saudade
e feridas expostas

O apreço e o afeto
são armadilhas do tempo
que ainda que não passe do portão
dói, coração

Não,
certifique-se que não sobre
cópia alguma dessa chave
para que no futuro
minha mente não trave
e a ela destranque
em cárcere privado

Deixo minhas emoções de lado
penso numa nova receita
de outros remédios para felicidade

A verdade é que
hoje nada é sólido
e seus corações não ardem

Estou cansada
de queimar sozinha

– Vitória Novoa, 25/03/2019

Espelho

Te enxergas o outro, com olhos soltos
Ou apenas através do teu espelho?
Deixa de lado teu instinto velho
Ou apenas refaz a tua visão
Por cima da sua convicção?

Será tão capaz de perceber
Que colocamos tudo de nós
Até no nosso saber
Portanto, qual limite
Do seu conhecer?
Se não for você

Podemos ser
Mil e uma versões
De nós mesmos
Quando observamos outro viver
Mas será mesmo essa
A melhor forma de entender?

Talvez, mas só talvez
Colocar nossa bagagem
Na frente do que é novo
É altamente perigoso

Estar aberto não é só receber
Novas visitas e perspectivas
Mas também ignorar
Não será absurda a prerrogativa?

Como resumir tantas vidas
Ao que acredita?
Estar aberto é também
Estar a beira

Como um penhasco enorme
Para abandonar estranhas impressões
Então estaremos agindo conforme
Nossas intenções

Porque para estar genuinamente presente
É tão necessário
Esquecer um pouco da gente
Para poder se ressignificar
Incluir novos sabores no nosso paladar

Seria impossível
Reconhecer uma nova cor
Se não estivessemos atentos
Ao notar as demais

Caso não se abandone
Por um minuto que seja
Nunca poderá alcançar conhecimentos
Que almeja

Porque ter a visão clara
E nitida, depende de atitudes
Tão raras?

Parece óbvio
Mas temos os vícios
De enxergar mais a si
Para gerar fatos fictícios
Que façam algum sentido

Baseando-se apenas
No egoísmo narcisista do ser
Que sabe tudo, enxerga tudo que pode ver
Sente tudo que pode tocar

Mas vê através do espelho
E carregar isso tudo por aí
Não deixas sair do lugar

Deslocado, nunca
Sempre confortável
O suficiente para agir de forma amigável
Até onde lhe convém

Porque ver o outro
Diz mais sobre abandonar
O interno
Do que tentar compreender o externo

Será mesmo este o jeito certo?

– Vitória Novoa, 29/04/2020

Possuída

Fui olhar no espelho e enxerguei o teu reflexo. Me pediram conselhos e respondia na tua voz. Andando pela mata, na beira de rios e cachoeiras, só te encontrei na foz. Eu que sempre fui flor, cheia de espinhos para não sofrer estupor, caminhei à procura daquilo que meu ofalto gostou. Já não havia mais tato, mas encontrei em meio a todo aquele mato, a mais bruta das flores. Eu conferi se ela tinha espinho, ou velhos amores. Tomei todo o cuidado ao pega-la, cavei até achar a raiz. O buraco que fiz na terra não tampei, fiquei pensando se esse teria sido o erro, mas sei que chuva ia completar o que fiz na terra. Voltei pra casa, com a flor e sua raíz me amarrando toda, me deixando até meio tonta, mas os espinhos dela não me arranhavam. Sempre me deixei admirada pelas plantas no caminho de volta, por mim todas valiam uma nova chance, uma nova vida e um novo cuidado. Mas quando cheguei com a flor roubada, peguei o vaso mais bonito, deixei a terra bem podada, hoje já perdi as contas de quanto tempo faz que ela está no meu quintal. Eu que sempre fiz coleção de plantas, essa tomou espaço de tudo que havia plantado, e sem pedir licença, tomou todos os espaços, saiu do quintal e chegou até meu quarto. Essa flor é bruta, é bonita, as vezes brilha. Ela também fala comigo, me lembra de como a vida é bonita, como as coisas que em toda a mata habita, mas foi só ela que quis para chamar de minha. Pode parecer loucura, amiga, mas escuto ela me chamar sua.

– Vitória Novoa, 17/02/2017

Bagunçada

Assim bagunçada, com a alma despida e desarmada. Cheia de falhas, um emaranhado de mágoas, meus olhos como rios que deságuam, oceano bravo e não se cala. Olhando no espelho, leio em meus olhos o desespero, a procura do meu esconderijo onde eu me caiba por inteiro. Não sinto vergonha mais nem das olheiras e nem do desapego. Me sinto vivaz quando percebo minha escalada em busca de uma ideia firmada. Achei lá no fundo escuro, e coloquei a minha volta pensamentos como soldados, para me proteger dos velhos estragos, velhas traições e esperanças inúteis. Foram ideais salvos de mim, positividade sem fim de onde não havia mais onde emergir. A minha volta procurei para onde ir e soube que qualquer caminho em liberdade, já vale qualquer coisa que se denomine como verdade. Cansada de quem quer mais não deseja, que suspira, grita, mais não flameja. Arde mas não queima. Cansei de futilidades superficiais e isso me faz mais sabia e voraz ao olhar em quem devo depositar. Não há aquele ou quem que dará sentido, meu peito é meu abrigo e o que vier é lucro. Meu discurso é longo, confuso, as vezes pode soar desesperado, e se lhe ocorrer de ser insano e que estou a alucinar, ponha-se no seu lugar. Pode me achar maluca, sincera ou ríspida demais, goste ou não, eu ainda me gosto mais. Se minha grandeza lhe assusta, perto de mim jamais deve habitar, sou satisfeita demais para deixar quaisquer coisa me apagar. Se minha personalidade não lhe diz respeito, eu ainda irei me amar. Esquece, e nem tenta mudar, se já não gostou assim não sabe como posso ser ao me rebelar. É em minha essência que está a riqueza do meu ser. Se meu diálogo não lhe importa, o que eu sinto não se ajusta, se minhas vontades te assustam, se ainda te agarrando você quer escapar, pode andar. Corra. Não me seduz quem não gosta de quem se importa, não me alimenta quem não visualiza e não ama quem está a sua volta. Pode ir embora, tem e DEVE ir embora agora, posso ter torta, não vou deixar de ser sagaz e de correr atrás dos instintos. Eu ainda me amarei demais. E cada vez mais. Não deixo ninguém para trás e todo problema não me permite dormir em paz enquanto não encontrar solução capaz. Minhas qualidades não precisam ser ditas, sei que dou valor para minhas histórias e amores assim como sinto orgulho de mim. Entenda: ser sensível não é um defeito, e se não entende tamanha empatia não me venha com apatia, não me importo de não ouvir qualquer resposta, se não me gosta mande recado por telepatia. Ele vai ser captado e como sempre, entendido e respeitado. Ainda que demore meus sentimentos se organizarão e eu continuarei disposta a dar e pedir qualquer perdão.

– Vitória Novoa, 25/12/2025